A humildade: uma virtude feminina?



É frequente na literatura cristã a associação da virtude da humildade às mulheres. Assim acontece com Maria, com as santas canonizadas pela Igreja, e com os modelos de boa mãe e esposa apresentados pelos devocionários católicos.

Por detrás dessa associação entre humildade e mulher quase sempre se escondem ideologias e preconceitos machistas: “humilde é a mulher que sabe o seu lugar”; “é a mulher obediente ao marido”; “a que sofre calada”; “a submissa”. Não seria difícil, inclusive, justificar tais preconceitos com textos bíblicos, citações de documentos da Igreja, e até mesmo com referências às palavras de várias santas.

De fato, Teresa d’Ávila refere-se frequentemente à virtude da humildade como uma das mais valiosas. Ela mesma diz que a “humildade é andar na verdade” (Livro das Moradas VI,10,7). Mas para Teresa a verdade é o fato de que fomos criados para Deus. A mentira é justamente tudo o que nos afasta dEle, porque nos afasta justamente daquilo que mais desejamos, um amor que nunca se acabe, um amor que só Deus pode nos dar.

Uma análise atenta aos escritos dessa mulher de Ávila não permite classificar a humildade como uma virtude eminentemente feminina. A humildade é uma virtude necessária a todos. Especialmente em nossa cultura tão marcada pela arte de vender ilusões e mentiras.

Com Teresa d’Ávila podemos dizer que a humildade não consiste em submeter-se a outro ser humano, mas em submeter-se ao desejo mais profundo que temos de Deus. É nEle que reconhecemos qualquer pessoa como imagem e semelhança sua. É nEle que as divisões e separações que sustentam todos os preconceitos perdem seu sentido de ser.

Roguemos, neste dia dedicado às mulheres, que Santa Teresa nos alcance a graça de experimentar e compreender que “só Deus basta”.

Sérgio Mendes

SPE